sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Noites ao luar

               Ando pela rua vagueando sem destino com tudo o que tenho às costas. Não faz mal, também não tenho muito. Do passado não sobrou nada e tudo o que tenho foi conseguido com o resto dos outros. Mas esse resto é tanto para mim … vagueio pelas ruas de Lisboa e pelo canto do olho reparo na estranheza das pessoas ao observarem-me . Umas mudam de passeio com pavor que vá suplicar algo a alguém ou somente com medo que cometa algum crime , como se fosse algum criminoso . Outras passam por mim com uma expressão de repugnância ou de nojo … e isso magoa, mas também não tenho coragem de as olhar nos olhos .Viver assim custa, mas principalmente a solidão mata por dentro a cada dia que passa.
             O céu é o meu abrigo e os degraus são a minha cama que com folhas de jornal retiradas do lixo fazem com que a dita cama não seja tão dura e tão penosa para mim .E os poucos cobertores e os imensos cartões são o meu refúgio da noite e os meus livros são cada palavra que está estampada nas mesmas folhas de papel em que me deito. É  com essas letras que me vou informando e me vou ligando ao mundo, porém este corpo já nem me pertence. Esta alma já esta ferida em demasia e as lágrimas já se foram esgotando ao longo dos anos. Para não desistir de viver, vou ficando aqui. Noite após noite, dia após dia, à espera que alguém me dê uma oportunidade para recomeçar do zero.
Mas até essa oportunidade é pedir muito. Desde quando é que as pessoas dão oportunidades aos sem-abrigo?
                Não quero a compaixão das pessoas. Quero uma oportunidade . E até mesmo a compaixão, essa, já vai desaparecendo quando percebem que dá muito trabalho ajudar os outros.
                Nas noites de céu estrelado adormeço a olhar para o azul e a pedir desejos a cada estrela que contemplo. Os meus desejos já não passam por ter uma casa ou um emprego. Esses ainda são para quem pode alcançá-los. Os meus passam apenas por conseguir ter uma refeição para o dia seguinte, para conseguir sobreviver mais um dia . Aqui não se vive, sobrevive-se. Nas noites frias embrulho-me o mais que consigo entre cobertores e cartões, para tentar resistir ao frio e à chuva . Quando as ruas já estão desertas, tento adormecer no meio dos papéis de jornais e ,aí, sou feliz . À noite, os sonhos são o meu limite e aí consigo ser igual aos outros… a maior parte das vezes sonho que estou numa cama aconchegada, enquanto oiço os pingos de chuva a escorrerem por entre as persianas das janelas. Nas outras vezes sonho com uma casa onde estou rodeado de uma família enorme em que todos se amam de verdade. Mas depois acordo.
               Se existe dor depois dos sonhos é mesmo na parte em que se acorda e se percebe que esse prazer não passou mesmo de um incomparável sonho e que tudo à volta continua igual ,ou talvez ,pior do que aquilo que se deixou momentos antes de viajar na ilusão.
               Porém o que custa mais é saber que para além de não ter abrigo, também não tenho amor . Mas qual é o sem-abrigo que tem? As pessoas, essas, passam por nós e nem reparam na nossa presença. Limitam-se a seguir em frente, fingindo que eu e outros milhões não existimos e ,apesar disso, ainda têm a capacidade de reclamar daquilo que têm. Os sem abrigo, só esses dão porque sabem o que é não ter. Mas como não têm, pouco podem fazer.
                Existem muitos como eu, mas todos sentimos a solidão. Falta é saber quando é que se começa a ajudar as pessoas e quando é que se deixa de esperar que a vida nos ajude…